Jorge Luiz Souto Maior
A manifestação de ontem, sexta-feira,
no centro da cidade de São Paulo, organizada pelo MPL e contando com a integração
de diversos coletivos cada vez mais atuantes, ao contrário da anterior,
realizada no bairro do Tatuapé, não chegou ao final, mas nem por isso foi menos
bonita e empolgante. Aliás, a água, tão em falta em São Paulo em razão de
reiteradas irresponsabilidades administrativas, deu o ar de sua graça em forma
de chuva, expondo o espetáculo das contradições.
Com efeito, em cena digna de filme de
Fellini, parecia que só chovia nos manifestantes, mas não como punição e sim
como um prêmio pela realização do ato, já que a água se tornou esse bem
extremamente raro e caro em nossa realidade. Assim, quanto mais chovia mais
eram regadas as esperanças dos manifestantes e mais animados e fortes eram os
gritos que expressavam.
Em volta, as pessoas que olhavam a
manifestação passar, escondendo-se da chuva, pareciam esturricadas e tristes.
Quanto aos policiais não integrados à tropa de choque, que acompanhavam os
manifestantes lado a lado sem ar de muita coisa, por mais que chovesse não se
molhavam, talvez porque só chovesse mesmo sobre os manifestantes, talvez porque
estivessem em outra dimensão, quem sabe acumulando a visualização dos “bicos”
que ainda teriam que fazer, saindo dali, para compensar os baixos salários.
Depois de quase duas horas de
manifestação, um tumulto, provocado por uma bomba cuja autoria do lançamento ninguém
ainda conseguiu esclarecer, foi o suficiente para que a tropa de choque
resolvesse finalizar o ato: saiu atirando bombas de gás em todo mundo e para
todo lado.
Com a dispersão, andando pelas ruas e
no metrô, foi interessante ver a separação muito nítida que se estabeleceu
entre quem tinha participado do ato, que estava encharcado, e quem estava,
digamos assim, vivendo a sua vida normal, sem muito contato recente com a água,
carregando certa desesperança.
A diferença do estado físico refletia
claramente uma distinção no estado de espírito. Uma hipótese para isso é que a
falta d’água, aliada às premências da sobrevivência, anestesia a mente e mentes
anestesiadas sequer são capazes de se indignar contra a falta d’água, que dirá,
então, lutar por direitos alheios, como fazem os integrantes do MPL e dos
demais grupos que participam das manifestações, notadamente no que se refere às
causas da classe trabalhadora.
Nesse quadro sobressai ainda mais a
importância das manifestações, que acabam se apresentando como um rio
entrecortando a cidade de concreto, seca e ao mesmo tempo quente e fria,
irrigando as consciências e os necessários sentimentos de indignação e de
solidariedade.
São Paulo, 24 de janeiro de 2015.
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